Obituarista não usa adjetivos

Depois de morto, todos viram santos. Exceto para um certo obituarista, que não usava adjetivo algum.

Era uma escrita crua: introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora. Simples assim. Tinha isso como uma regra pessoal que o isentava do erro de transformar monstros em homens dignos e vice-versa. Não quebrou sua regra nem na ocasião do registro do falecimento da menina Dolores que, havia algum tempo, lhe inspirava sonhos devassos, quando não noites insones.

Não que a menina cheirasse a sexo. Ao contrário, mal tinha peitinhos. Não tinha um pingo de lascividade. E era tão graciosa quanto um azulejo português. Mas seu nome era Dolores e isso bastava para que o obituarista visse naquela menina de 16 anos a Lolita de Humbert Humbert.

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.

Enfim, era apenas um nome. E era o bastante para aquele homem.

Dolores e o obituarista não eram íntimos. Davam-se “bons dias” de vez em quando e só. A menina, claro, nunca soube do calor que arrebatava o peito e as partes daquele homem toda vez que ela passava vestida com o collant do balé em frente de sua casa. Ela nem imaginava que a vontade do obituarista era arrastá-la para dentro de casa e devorá-la. “Entra menina e sai mulher”, pensava o obituarista. E ele não era o único a salivar diante da menina. Dolores foi estuprada e morta por um tio-avô na antevéspera de Natal. O obituarista lamentou e entendeu o que se passava na cabeça daquele assassino. E não usou adjetivo algum ao escrever o obituário da menina, apesar de desejar de toda a alma fazê-lo.

***

Quando o pai faleceu, coube-lhe a tarefa de inscrever nas páginas do jornal sua morte. Foi então que a mão coçou mais uma vez para adjetivar aquele crápula. Usaria os piores verbetes encontrados na língua portuguesa, e não duvidaria se inventasse outros piores. Daria capa, foto, legenda, se possível fosse. Narraria em tom vívido aquela quarta-feira em que o pai saiu de casa para comprar leite e sumiu. E o telegrama na terça-feira seguinte dizendo que estava bem e que não voltaria. E a foto no jornal dois anos depois que estampava o canalha ao lado de uma jovem morena, sua sobrinha. E a legenda da imagem que berrava ao mundo a felicidade do casal prestes a se casar.

“O filho da puta matou minha mãe. De desgosto”, me disse uma vez o obituarista.

Na verdade, ela morreu de câncer algum tempo depois. E sua morte causou no obituarista imensa dor. Quando teve de colocar no jornal o falecimento da mãe, ele tremia ao grafar o nome da mulher, e foi inevitável aquela lágrima que caiu nas costas da mão enquanto digitava a hora do velório. Ainda assim, preservou os leitores de palavras mais subjetivas. Queria esconder nas entrelinhas que aquela mulher sofrera em vida e que, ainda assim, lhe legara muito amor. Não o fez.

***

A única vez que o obituarista fugiu à regra e usou um adjetivo foi quando decidiu se matar. Antes de estourar os miolos, deixou pronto o obituário do dia seguinte. Usou para se referir a si mesmo o termo “desgraçado” sem imaginar que, durante o fechamento da edição, o editor cortaria o adjetivo. Introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora. Sempre. Introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora.

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Troll: o legado da nossa miséria

No futuro, quando arqueólogos e escafandristas procurarem vestígios da nossa civilização – nossos filhos já não estarão aqui, assim como os filhos deles e os frutos destes –, serão encontrados mais do que ossos e pedaços de pano puído, placas-mãe enferrujadas e resquícios de smartphones.Acharão, no meio do nosso legado de bytes brutalmente construído neste começo de século, os comentários que deixamos por aí quando vestidos das armas do troll.

No vídeo do garoto de 17 anos que descobre ter pouco tempo de vida e deseja apenas se despedir dos entes amados, lerão “cale a boca e se mate”. Naquele dos quadrigêmeos que riem de maneira deliciosa, verão os 149 dislikes. No vídeo dos irmãos negros que cantam música gospel e desafinam e gritam e riem e se divertem, reconhecerão todo o preconceito ainda em voga na frase “quem acha que o garoto parece um macaco dá joinha”.

Os tais arqueólogos e escafandristas irão sorrir. Estarão satisfeitos com a extinção da nossa civilização.

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todos os dias eu tomo meu remédio para o estômago pensando puta merda viverei o resto da vida assim engolindo cápsulas nessas horas eu entendo kurt cobain alguns dizem que ele se matou porque havia uma dor absurda incurável um rasgo uma dor hedionda no estômago eu entendo é como viver pelas tabelas pela metade apenas esperando esperando o grande dia em que remédio nenhum acabará com a dor pois não haverá mais dor não haverá mais vida fodam-se as cápsulas foda-se o nirvana você será um pedaço inerte de carne em breve terá um cheiro forte de carne podre e será devorado por vermes schopenhauer disse que a grande tragédia humana é viver sabendo que você vai morrer é essa tragédia que eu digiro toda manhã aos goles de água minalba fico feliz em saber que há pessoas ignorantes pessoas que não ligam saber coisas é fechar pacto com o diabo veja adão que comeu o fruto do conhecimento e foi escorraçado do paraíso por um deus vingativo e arrependido por ter feito o homem leiam a bíblia está tudo lá leiam bulas de remédio elas são minha bíblia nos últimos cinco anos desde que vim parar nesta cidade são paulo me dá azia me dá câncer me dá minhas doses de uísque meu samba capenga meus sorrisos fingidos meus orgasmos são paulo me dá um desejo de ser outro de por exemplo escrever sem pontos porque é como funciona o cérebro sem edições sem cortes sem voltar para usar uma palavra melhor e mostrar como sou erudito num mundo de gente imbecil eu li recentemente um texto da taísa que era assim eu gostei achei forte mais forte do que se tivesse pontos e vírgulas e formalidades gramaticais e estilísticas cretinas para um momento de plena sinceridade é pautar o instante com pontos e vírgulas e pedregulhos eu tenho uma admiração explicável mas calada por algumas pessoas que nem fazem ideia disso a taísa é uma dessas pessoas a winnee o fred o jader o guga o felipe a carol a lili o mateus também são paulo me deu amigos e síndrome do pânico me deu sobretudo meninas a quem eu daria filhos e uma breve vida a dois com quem eu daria umas belas dumas curradas no chão da sala com uma violência milimetricamente calculada ou nem tanto calculada mas nunca exagerada apenas na medida para marcar na carne com mordidas e tapas o quanto eu a desejo daria uns tapas na bunda para depois encher de beijos e trocar juras de um amor eterno que dura até o elevador chegar no décimo primeiro andar do prédio e levar a mulher embora eu pensaria seria bom se ela ficasse se ela me amasse e roçasse seus pequeninos pés nos meus enquanto dormimos mas ela nunca fica eu dormiria sozinho como todos os dias eu veria tevê para pegar no sono como todos os dias eu teria o sonho recorrente da bela mulher de pele branca e rosto que nunca se mostra por completo mas que eu sei que está feliz e rindo como todos os dias eu acordaria com o celular tocando como todos os dias eu tomaria meu remédio para estômago como todos os dias

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Jornalismo arte

Nenhuma categoria da lista da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) me chama mais a atenção do que a de literatura. Todo ano, aguardo com devoção especial os resultados de melhor obra de biografia e melhor reportagem. Justifica essa minha espera – ou seria vigília? – o momento raro: quando a relação dos melhores do ano é divulgada na imprensa.

É ali, naquele instante, que o ofício mundano do jornalismo se mescla com o quê mais etéreo das artes. Sim, jornalismo pode ser arte. Pergunte a Hersey.

“A noite estava quente e o calor parecia ainda mais intenso por causa dos incêndios, porém uma das meninas que os religiosos resgataram se queixou de frio. O padre Kleinsorge a cobriu com sua túnica. Com várias partes do corpo em carne-viva, conseqüência de enormes queimaduras produzidas pela radiação térmica da explosão – a menina ficara horas dentro do rio, com sua irmã mais velha e a água salgada do Kyo seguramente lhe causara uma dor excruciante. Ela se pôs a tremer e novamente se queixou de frio. O padre Kleinsorge pediu um cobertor emprestado e a agasalhou, porém ela tiritava cada vez mais. `Estou com muito frio´, disse. De repente parou de tremer e morreu.”

Parece literatura, mas é jornalismo

Página da New Yorker com trecho de HiroshimaHiroshima, de John Hersey, tomou toda a edição de 31 de agosto de 1946 da New Yorker. Não por acaso, o texto da devastação da bomba atômica que culminou no fim da Segunda Guerra Mundial foi eleito o mais importante relato do século 20 pela Universidade de Columbia e ficou em primeiro lugar na lista das cem maiores reportagens da Universidade de Nova York. Um dos motivos é a forma como Hersey conduz sua escrita que, à primeira vista, pode soar a literatura, mas nada tem de ficção; é jornalismo.

Da mesma fonte de Hersey, beberam alguns dos nossos mais célebres jornalistas, tais como José Silveira, Rubem BragaAntônio CalladoJosé Hamilton Ribeiro. À parte produções pontuais, a revista Realidade e o Jornal da Tarde são obeliscos do gênero. Durante a década de 1960, suas publicações traziam reportagens de fôlego numa escrita fluida, o que ajudou a moldar a cara do Brasil na iminência dos anos de chumbo. A prática de jornalismo literário na redação do JT feneceu na década de 1990, enquanto a Realidade jaz na memória nostálgica de quem tem mais de cinquenta anos e que lamenta não terem surgidos, nos últimos anos, textos similares aos da extinta publicação da Editora Abril.

Quase sete décadas depois da publicação de Hiroshima e cinco após o fim da Realidade, o gênero literário continua atraindo as atenções e fazendo adeptos na imprensa. Seja para tratar de um mendigo que nunca pediu coisa alguma ou um terminal rodoviário em São Paulo, profissionais fazem uso da literatura de não-ficção para contar belas histórias reais e transformam uma simples notícia em arte.

“Textos duram décadas”

De fato, o jornalismo literário feito no Brasil perdura, não morreu com a Realidade e o JT. Quando a RBS adquiriu o Zero Hora na década de 1970, havia forte concorrência do centenário Correio do Povo. Para encarar o mercado, o diário passou por um processo de consolidação e de melhoria editorial e gráfica e o jornalismo narrativo surgiu como diferencial. “Foi então que se criou a tradição de grandes reportagens na redação”, explicou Marcelo Rech, ex-editor do jornal e atual diretor-geral de produto da RBS, num bate-papo há uns anos. Para ele, num mundo em que há rádio e web, o jornal que leva ao leitor notícias simples está fadado a sucumbir.

Neste século, a primeira empreitada comercial do jornalismo literário veio em formato de livrorreportagem. A Companhia das Letras endossou a ideia do jornalista Matinas Suzuki Jr. e passou a lançar periodicamente clássicos do gênero. O primeiro deles foi Hiroshima, em 2001. Até o momento, são 32 obras, das quais cinco são de escritores brasileiros – Joel Silveira, com A feijoada que derrubou o governoA milésima segunda noite da avenida Paulista; Antonio Callado, com Esqueleto na Lagoa Verde; Zuenir Ventura, com Chico Mendes: crime e castigo; e uma coletânea de autores da revista Piauí com Vultos da República. Segundo Matinas, o gênero não é uma “modinha”:

“Alguns dos textos têm mais de 60 anos. Foram publicados para serem lidos no dia, na semana ou no mês, e já duram mais de seis décadas.”

“Ver de outra forma”

A vocação pela narrativa jornalística não requer o rótulo literário. Foi o que aconteceu na década de 1990, quando houve reformas curriculares nas universidades. “A inserção da possibilidade de o aluno de Comunicação fazer um livrorreportagem como trabalho de conclusão de curso expandiu o gênero. Não se falava em JL na época, mas o livrorreportagem ficou associado ao jornalismo literário. Isso gerou trabalhos rasos, mas o excesso gera coisas legais”, comenta Sérgio Vilas Boas, jornalista e coordenador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário.

O livro amarelo do terminal, de Vanessa BarbaraUm dos bons exemplos contemporâneos do que a reestruturação acadêmica proporcionou saiu das mãos de Vanessa Barbara, que se utilizou da arte literária para escrever O livro amarelo do terminal, um retrato preciso e irreverente do Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. O que era um trabalho de conclusão de curso tornou-se título publicado pela Cosac Naify em 2008 e reverenciado pela APCA no mesmo ano. Desde a época de faculdade, a jovem jornalista busca “ver as coisas de outras formas”. Influenciada por Gay TaleseJoseph MitchellTruman CapoteLilian Ross, Vanessa confessa que não seria capaz de “ligar para uma assessoria de imprensa pedindo dados sobre a movimentação de veículos nas estradas”.

Auto-indulgência dos editores

O recente interesse do gênero literário na imprensa não se deve apenas à superficialidade das notícias e reportagens, mas também ao advento da recepção em massa de material jornalístico na rede mundial de computadores. Claudio Tognolli aponta a tendência da dispersão de informações sem estrutura, por repetição, tal qual um eco. “As redações esperam colaborações de fotos e textos emanados de leitores que, por sua vez, programam as páginas da internet, via RSS, e editam de casa o que querem ler. Essa linguagem do jornalismo é resumida, ‘ecolálica’.”

A propagação de informações em larga escala pela rede mundial, no entanto, pode ser um motivo para alavancar o jornalismo narrativo na mídia impressa, uma vez que este gênero seria o diferencial do conteúdo encontrado na internet. “O jornalismo literário, o gonzo e outras variantes seriam uma grande oferta para quem está cansado de abrir os jornais e ver que não tem nada diferente do que se leu um dia antes”, diz o cronista Xico Sá, que percebe a necessidade em se contarem boas histórias, “independentemente do rótulo”.

Xico, porém, relaciona a cisma que persiste nos grandes veículos de comunicação em não aceitar uma narrativa que fuja aos padrões da empresa. “É um preconceito antigo. Lembro quando ouvia nas redações aquela sentença, sempre seguida de uma risada, ‘Lá vem o poeta’. A maioria dos cargos de comando dos jornais está nas mãos de burocratas que insistem na política da chatice mesmo”. Tognolli concorda: “infelizmente, o jornalismo literário no Brasil só ocorre em acessos de auto-indulgência por parte dos editores”.

Xico Sá sofria bullying na redação

Rótulo entra como “charminho”

Neste cenário, é comum cair no erro de crer que o jornalismo literário é melhor do que o convencional. Ledo engano. Matinas aponta que ambos podem coexistir em harmonia: “O noticiário do dia a dia precisa de uma linguagem simples, direta, com leadpirâmide invertida; o jornalismo literário tem outras necessidades”. Mesmo nas redações hard news, “não é impossível ser um pouco mais criativo, dar todas as informações essenciais e, ao mesmo tempo, ter um texto mais bem escrito”.

Eliane Brum, que já passou pela redação do Zero Hora, ganhou o Prêmio Jabuti 2007 na categoria livrorreportagem com A vida que ninguém vê, uma coletânea de escritos produzidos para a edição de sábado do periódico gaúcho.

“Sempre busco fazer um texto que o leitor possa ler com o prazer de uma ficção. Isso só é possível com uma apuração tão completa, tão detalhada, que permita ao leitor ser transportado para a realidade que nós, repórteres, tivemos o privilégio de testemunhar. Então, ele pode fazer suas próprias escolhas, ter suas próprias opiniões. Algumas pessoas identificam essas características com o jornalismo literário; para mim, isso é bom jornalismo.”

A busca por gêneros tem a pretensão de elevar o valor do texto, como se o termo “literário” atribuísse ao escrito a perenidade que a ficção detém. “A verdade é que fica forçada a tentativa de muita gente de transformar bons textos jornalísticos em obras-primas literárias”, aponta o crítico e jornalista Adriano Schwartz. Lançar mão de beletrismos em material noticioso é reservar uma suposta nobreza a uma atividade prática e concreta. “A grandeza do jornalismo literário está em ele ser ‘grande jornalisticamente’. Eu não acredito muito nessa mistura: o rótulo parece entrar como um ‘charminho’, um símbolo de status.”

O público não quer ser ignorado

Sua opinião baseia-se nas definições essenciais de cada campo: a literatura tem como elemento primordial o trabalho com a linguagem, enquanto sua relação com os fatos é ocasional. “O jornalismo, por outro lado, busca sempre uma representação de alguma fatia da realidade. Nessa construção, ele pode, eventualmente, atingir um nível de trabalho com a linguagem tal que termina por passar uma impressão de texto literário.”

Mas afinal, pode-se considerar uma determinada reportagem literatura? Marçal Aquino, escritor e jornalista, acredita que sim, “na medida em que existe a preocupação declarada de produzir algo além da mera informação, algo com estilo”. Ele lembra a experiência do Jornal da Tarde que, “ao menos até a década de 90, mostrou que é possível dar as notícias com estilo, e que é legítimo um texto jornalístico aspirar à literatura”.

Estilo é bem-vindo em peças jornalísticas. Antes de ser literário, porém, é um produto informativo e deve manter este seu caráter. Isso significa que “a pior coisa é pretender ser muito elevado, é querer escrever bonito e sacrificar a reportagem em benefício de um texto cheio de mesóclises”. Vanessa Barbara aposta na parcimônia e ressalta a necessidade de “saber equilibrar e apresentar simplesmente os fatos para escrever um texto bom, ao contrário do que se pensa”.

Um bom texto. Nossa imprensa está repleta de números apenas, e carece de boas histórias. Podem pretender uma elevação artística. “Jornais e revistas desprezaram por muito tempo os leitores que gostam de um bom texto simplesmente pelo prazer de lê-los e eu acho que este público não quer mais ser ignorado”, percebe Matinas.

Aos poucos, a mídia também vai percebendo: jornalismo pode ser arte.

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O espelho de Doppelgänger

Rodolfo, por Thiago Cury Luiz:

Na sarjeta caia um bêbado. Cabelos anacrônicos, pança generosa, óculos em migalhas. Profanava palavras quase que incompreensíveis. Alheio às falas mais costumeiras, mantinha um tom de voz médio, mas, atropelando as vogais, não conseguia dar ao seu discurso a eloquência necessária. As consoantes que restavam compunham um amontoado. Vagamente, percebia-se que recitava poemas – desconhecidos, diga-se -, declamava trechos soltos de contos – seus – e cantarolava bossa nova. Mencionava que não deixaria legado algum à humanidade. Apenas desejava uma morte indolor.

Aquele que beijava a calçada com entusiasmo era Rodolfo. Não, ele não é um comunista de passeatas ou guerrilhas. Mas também não é o reacionário que simula ser. É a convergência de um bom vento litorâneo com as avalanches mais devastadoras do Everest. Às vezes, parece ser o que não é. Às vezes, é o que não parece ser. Dentre as combinações, escolhe as boas, mesmo que as negue em surtos de ser um alternativo às avessas.

Rodolfo, por Luiz Gustavo Leme:

conheci rodolfo viana no dia em que procurava, em meio a milhões de folhas secas de plátanos, meu anel de formatura em engenharia civil. era segunda-feira, central park gelado, eu ainda mal curado da ressaca, e ele numa capa preta me ofereceu um cigarro. falou da vida, de sua mãe, de seus amigos mortos em cuba, de seu encontro com o jazz no carnegie hall, seu paladar para vinhos e cozinha mineira, as cartas que trocava com chico na itália, uns bons textos que dariam ótimos frilas e sua leica inseparável. me mostrou uma nota de cinquenta dólares por entre as folhas. torramos em vodka barata, o que me fez me matricular no jornalismo no regresso ao brasil. hoje nos correspondemos basicamente por internet, mas é como se ele ainda estivesse aqui cochichando textos em meu ouvido, elogiando o que eu faço e colocando um pouco mais de inteligência nos pequenos atos. saudade daquele outono em manhattan. no fim, ele sempre me traz livros e risadas. seu sorvete favorito é de buriti com macadâmia. amo rodolfo viana.

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