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Memórias de um Matuto

Por volta de meus 9 anos, encontrava-me por Feira de Santana, na Bahia, ou pelo menos era o que dizia minha avó.
Contava-me que era uma parada muito marcante entre o Rio de Janeiro e o Ceará. Dizia que dali pra frente faltava
só um dia e meio para chegar na cidade de Nova Russas. 

Como todo menino que tudo pede à vó, pedi um barco de valor modesto, daqueles que se vendem nas paragens.
Barco que passou a ser nosso primeiro utensílio decorativo que iria compor a nova casa, ainda que não soubéssemos disso. 

Foi em Nova Russas que comemorei meus 10 anos, como atesta a foto. Não fui eu que o idealizei, imagino que foi um mimo, um dengo, de minhas tia, prima e avó. Foi certamente um grandioso gesto incomum de carinho talvez para amansar-me um pouco. Sem que eu me lembre muito o porquê atirei algumas pedras no portão de minha tia. Quando ela raiou comigo, as atirei nela também. Talvez a festa de 10 anos tenha sido não só para me conformar, mas para dizer: bem-vindo. 

Não lembro quem fez o registro dessa imagem. Eu olho para a câmera na medida que os convidados,
todos novos amigos, olham pra mim. Ao fundo com as cabeças cortadas uma senhora muito amiga de minha avó,
e no canto superior direito, a tia que atirei pedras. 

Era comum no início da noite as senhoras se reunirem com cadeiras de balanço nas calçadas e colocarem a TV na rua
para ver as novelas. Tudo ficava oportuno para mim e o menino fazendo o gesto das palmas, era o De Assis – nome que
não esqueço –, sempre nos aproveitamos. Sumíamos. A inocência da imagem ajuda a disfarçar aquilo que os adultos não poderiam, de jeito nenhum, imaginar que fazíamos.   

Uma década atrás também recebia uma festa de aniversário. Desta eu nada me lembro. Foi num apartamento apertado,
no Bairro de Realengo, no Rio de Janeiro. Havia também muitos convidados, no entanto, não encontro registro de minha mãe biológica. A nega que aparece no meio da família branca é outra. 

Por alguma razão não tenho imagens de infância com minha mãe preta – a nega Nair –, como a chamam até hoje.
O que tenho são fotos com a minha mãe branca e ao mesmo tempo avó. Guardo as imagens de um cotidiano que
não me lembro, mas certamente, esta da imagem abaixo, de minha avó me buscando na escola, num fim de tarde qualquer, a julgar pela tangente da luz, lembra-me cuidado. Um cuidado específico, de quem sempre foi cercado pelas duas mães:
a branca e a preta. 

Reli essa mensagem inúmeras vezes anos depois. Ele foi escrito não por minha mãe, mas por seu marido, o Tio Rogerio,
um homem negro, retinto, absolutamente carinhoso, que contava estórias pra que eu dormisse. Algo mais próximo que
tive de uma figura paterna. Foi um pedido de minha mãe, tenho certeza, mas a frase está no plural. 

Esse cartão é um indício forte de minhas suspeitas, o guardo como prova de que nem tudo eu imaginei.
Há algo incomum nesses dizeres que ninguém me responde: 

– O que diabos eu fui fazer no Ceará? Pensei que fosse só um passeio de férias e lá fiquei por quatro anos. 

Nos estabelecemos, num primeiro momento, no povoado de origem de minha avó, o distrito de Sacramento (CE).
Havia, o que deduzo ou imagino, uma tentativa de restituir o abandono parental de meu pai biológico, que por sua vez,
havia me deixado aqui na cidade do Rio, sobre os cuidados de minha avó. 

Neste êxodo reverso a aproximação com meu pai era tensa, ele, loiro de olhos azuis; eu, um crioulo, segundo eles.
Nunca havíamos nos aproximado por mais de um dia. Nessa relação ríspida ganhei o apelido de matuto quando brincava com meus irmãos mais novos e recém conhecidos. Depois descobri que matuto era o nome que se dava a uma criança besta, deslumbrada, ou simplesmente, infantil.

Em uma noite fui apresentado a um casal pelo meu pai biológico, a Rita e o Berto, disse-me que eu poderia ir com eles,

se eu quisesse. O casal que teria por volta de 50 anos, na época, foi de uma amorosa acolhida, perguntaram-me se eu gostaria de passar uns dias com eles, num lugar ainda mais longe, algumas léguas dali, chamado Pedra Redonda.

Minha avó, de acordo, permitiu. 

O lugar possuía este nome quase de modo descritivo, havia um grande morro com uma pedra.

Não tinha luz elétrica, avistava-se quatro casas apenas e um enorme Açude. A casa principal pertencia a Tia Rita

e ao Tio Berto, modo que eu os chamava, que lhes causava uma exótica estranheza, pois aqui no Rio, qualquer pessoa

mais velha pode ser sua tia ou seu tio.  

Lembro-me de uma vista indevassável para o Açude onde o banho era liberado. Era comum fazer isso nu.
Ganhei um jumento, um bode, cuidava dos bichos, colhi ovos, cavei cacimbas, aprendi a fazer queijos, doce de leite
e de mamão. Dormia-se logo ao entardecer sob o cheiro forte das lamparinas, acordava-se cedo pra cuidar dos bichos. 

Fico imaginando minha vida se eu tivesse ficado por lá. Faço perguntas e saio criando algumas histórias em minha cabeça para respondê-las quando o meu cotidiano atual me aflige.

Recorrentemente, imagino que talvez eu não tivesse nada do que tenho hoje. O que me pergunto é se eu gostaria de ter outra vida, quando a que eu inventei pra mim, às vezes, não me basta. Lembro que colei uma 3/4 do maternal numa carteirinha boba, de uma atividade escolar qualquer, que não sei bem qual, pois o texto está apagado.
Foi no Iserj – o histórico Instituto de Educação, no bairro da Tijuca. Escola que ingressei por sorteio, cheia de tradições, uniformes clássicos, pingentes, um grande teatro. Um marco no meu caminho de altíssimo letramento e qualificação profissional que contrasta muito com minhas memórias de origem. 

Ao fim da oitava série, ganhei de minha mãe preta, que dentre suas profissões, foi revendedora de joias, um pingente de formatura com a letra “R”. Foi quando finalizei o 1º grau, no saudoso Instituto de Educação, e, anos depois, ganhei um clássico anel de formatura após o bacharelado de comunicação. Por ironia é um anel de medicina, para os ditos doutores, talvez a única joia cara que eu tenha, que honre o título que em poucos anos receberei. Não como médico, mas como doutor. Ainda não sei explicar essa diferença pra minha mãe preta, seja como for, ela morre de orgulho.  

São marcas tão fortes, tão potentes, tão contrastantes ao meu presente. Objetos e lembranças que me trazem
outros saberes, outros letramentos que se opõem ao meu hoje. A caligrafia de minha avó, por exemplo, motivo
de imenso orgulho, que ela mesmo se gabava – “eu sei assinar” –, dizia de modo esnobe as velhas que não sabiam.
Sua crença dura, o jeito turrão de me ensinar o Pai Nosso mais antigo. Uma fé que me fez pagar alguma promessa
indo a cidade do Canindé, mas não lembro qual. No entanto, não há saber que explique, fé que esclareça, ninguém
que me conte: o que diabos eu fui fazer no Ceará?

Hoje, aqui e acolá, me pego imaginando: o que a Tia Rita e o Tio Berto tanto queriam com um menino matuto.
Com eles, na Pedra Redonda, curiosamente, o Rio não fazia qualquer falta. Era o modo como eu existia ali naquele
território, fazendo traquinagens cariocas em solo cearense. Se eu vivesse por lá, por quanto tempo eu seguiria autorizado a ser matuto? O que vivi parece uma outra vida. Experiências que estão arquivadas entre a minha memória e aquelas coisas, ou essas coisas, ou as que virão. Coisas que a gente inventa pra se inventar. Afinal, eu nunca entendi a real motivação dessa aproximação mediada por meu pai ao Tio Berto e a Tia Rita. A esse fato eu não tenho nenhum vestígio. 


Outro dia, de entreouvidos, escutei de uma Tia uma experiência semelhante. Dizia ela que na infância a mesma foi dada à fazendeiros locais que não tinham filhas mulheres. Tive muitas epifanias. Os elos foram inevitáveis. Não há saber no mundo capaz de elucidar como pode um ser humano ser dado a outro. 


Já não me lembro o que disso é de verdade, ou se precisa ser verdade, ou quais dessas partes eu mesmo inventei pra existir criando meus próprios automitos. O que está em minha memória, ou em qualquer uma que guardei, física ou não, é algo vago, fluido, fragmentado e cheio de emendas. Parece que é por isso que a criatura matuta é deslocada e permanentemente estrangeira onde pisa. Tudo que faz lhe é comunicado a estranheza. Um matuto não precisa ter compromisso com a verdade. Seu compromisso é com a invenção, especialmente, daquelas coisas que escolheu carregar. Seja por carregar consigo próprio ou carregar de significado. 


Rodolfo Viana
30/01/2019
 

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